Leva teus sonhos a sério -
não são tão somente mistério
são antes o instante largo
o charco da intempérie íntima,
insuspeitada, o sótão onde dormem
teus choros engolidos da infância,
e toda tua ânsia adulta
resulta desse acordo tácito
entre a vigília absoluta, e a
tua incapacidade em viver-lhe
a frieza cartesiana
Teus sonhos são a sanha
irreprimível da natureza, que
repete a destreza do que mentes
co'a semente do fulgor imaginado
lembra do que foi sonhado
ainda que inventes a narrativa
da furtiva janela entreaberta
onde a bela mulher que espera
o inesperado jamais mostra o rosto
lá tudo está posto, tudo dito
da afasia do infinito à nitidez
do frágil presente
A inquieta luminescência, o roteiro
fragmentado, o realismo fantástico,
a sombra aterrorizante, o
prazer irrepetível, a anedota,
o enigma, o anagrama, a parábola,
a runa e o arcano, todos os teus
enganos, solucionados a um só talho,
de um só gole, golpeados a frio,
no vazio de existires, de resistires,
de, por fim, insistires na ignorância
do que acode, ostensivo feito
enormes ondas salgadas na areia,
a cada noite em que vagueias,
e dormes.
inerência da linguagem mormente na página branca: a potência da semente, a semântica do mote cotidiano, sem planos. poesia para o enfrentamento do que inexiste, mas urge. grafias caboclas e indígenas por ascendência, oriundas de uma terra feita de águas intensas. poemas registrados na Fundação Biblioteca Nacional - RJ
quinta-feira, dezembro 13, 2012
quinta-feira, novembro 01, 2012
O Perdão
esforça-te em tua chaga
com a draga macia da solidão
pois os que te ofenderam
jamais saberão que te afagas
antes com a faca que com o perdão
- este hiato entre o silêncio
e a mágoa inevitada
com a draga macia da solidão
pois os que te ofenderam
jamais saberão que te afagas
antes com a faca que com o perdão
- este hiato entre o silêncio
e a mágoa inevitada
esta enxada com que cavas
a terra encharcada
de tua própria escravidão
sangue e suor, lágrima e cachaça
os sacramentos da missa
de extrema unção do teu ego
tornado baia e pelego
sobre o cavalo de fogo e remorso
teus metatarsos cravados no dorso,
na crina da égua noturna
tua febre diuturna
sem água ou descanso
o descaso rançoso com que avanças
cego, e sem vingança aparente
rangendo entre os dentes
a ferrugem amorosa
a pobre rosa do perdão
que abortas, ainda em botão.
a terra encharcada
de tua própria escravidão
sangue e suor, lágrima e cachaça
os sacramentos da missa
de extrema unção do teu ego
tornado baia e pelego
sobre o cavalo de fogo e remorso
teus metatarsos cravados no dorso,
na crina da égua noturna
tua febre diuturna
sem água ou descanso
o descaso rançoso com que avanças
cego, e sem vingança aparente
rangendo entre os dentes
a ferrugem amorosa
a pobre rosa do perdão
que abortas, ainda em botão.
terça-feira, outubro 30, 2012
Pátria de Sermos
Na noite do dia 28 de dezembro de 2006, conversava com minha amiga portuguesa Luísa Mota pelo msn (nessa época, esse comunicador ainda era bastante popular e útil, pelo menos pra mim). Nossas conversas, sempre travadas com fulgor e intensidade das verdadeiras amizades, chegavam, por vezes, a pontos brilhantes, de profunda emoção, como quando certa vez chorei ao ver, pela web cam, sua pequena filha a dançar e rodopiar na sala de seu apartamento de então. Luísa (hoje Ribas, porque casou-se com o também poeta e artista visual carioca Renato Ribas), sempre foi uma "amiga virtual" - nunca nos vimos de perto - mas sua amizade sincera, a grandeza evidente de seu caráter, e seu imenso e sensível talento como poeta, nos fizeram amigos reais, bem mais que muita gente que vejo de perto cá em minha cidade, e a sei leitora atenta de meus escritos.
Gosto de escrever a quatro mãos, e já publiquei algumas parcerias na Página Branca; estranhamente, ainda não havia publicado esta, que nasceu nessa noite como substrato de uma de nossas conversas mais profícuas. O poema, construído verso a verso como num diálogo, tornou-se desde o ano passado o encerramento do espetáculo De Tudo: música+poesia, que realizo com o poeta Renato Gusmão, e o considero emblemático de tudo o que representa ser poeta: um diálogo com algo que não se vê, mas se sente profundamente, como os amigos invisíveis das crianças. Serei sempre eternamente agradecido, Senhora Lua...
Gosto de escrever a quatro mãos, e já publiquei algumas parcerias na Página Branca; estranhamente, ainda não havia publicado esta, que nasceu nessa noite como substrato de uma de nossas conversas mais profícuas. O poema, construído verso a verso como num diálogo, tornou-se desde o ano passado o encerramento do espetáculo De Tudo: música+poesia, que realizo com o poeta Renato Gusmão, e o considero emblemático de tudo o que representa ser poeta: um diálogo com algo que não se vê, mas se sente profundamente, como os amigos invisíveis das crianças. Serei sempre eternamente agradecido, Senhora Lua...
vive mais poesia no
olhar
do que nos objetos - afetos de brisa
que fitam palavras de
ternura
balançam nas juras que o vento paralisa
versos celebrados em
candura
que nenhuma escura voz poderá obliterar
nossa escritura
vincular ilimitada
a espada de lírios que empunhas absorta
imensidade cumprida em
segredo sideral
assusta, deveras, os que compreendem mal
mas exalta o universo
dos que amam
há mais poesia porque dela floresces
como as medusas das
praias nuas
como absintos das ruas e vielas multicores
rédeas e rodopios da
vida -
a que consentes, a que conquistas
a que vences sem armas,
com beijos
na planície, sob a aurora do desejo
marcha de sonho e um
reino florido
para teu povo - a gema límpida do futuro
pátria de sermos
sexta-feira, outubro 12, 2012
Oito Trovas Vividas
dei um jeito de ir crescendo
pra surgir noutro lugar
minha vida fui vivendo
indo de aqui até acolá
ando assim como se quando
fosse onde eu queira estar
adormeço e vou sonhando
sem saber como acordar
sem saber se o que escondo
é o mais fundo do que sou
a pergunta que respondo
ao mostrar-me sem pudor
se puder, me faço inverso
do que peço ou do que quis
sempre intenso no que, imerso,
penso ser minha raiz
num país deserto, a neve
de um inverno sem palavra
e meu corpo inquieto e breve
se descreve no que escava
e se encobre no que embebe
de absinto ou de cachaça
o absurdo labirinto
do que sinto, e nunca passa
e não grassa a desventuras
nas paúras descontentes
que me queiram nas funduras
escurezas penitentes
vou tentando ser adiante
antes que a morte surpreenda
e me prenda em seca fonte
donde eu nada mais entenda.
terça-feira, agosto 28, 2012
Nu e cru
sou nu e cru como sempre
unha e carne com o perigo
ando bem leal comigo
da cabeça ao baixo ventre
os meus pés eu deixo à solta
para irem sem destino
sou o homem e o menino
pelo mundo sem escolta
mas escuto o que me falam
as canções e os amigos
choro, bebo, berro e brigo
por tudo aquilo que calam
e por tudo o que sangra
estanco à minha maneira
com metal, fogo e madeira
da viola à voz que singra
atravessa a vida a nado
num estado de urgência
repetindo em mim a ciência
do mistério desvendado
sou tal e qual desde o berço
desde antes desta vida
tenho a alma repartida
entre o que peço e mereço
nu e cru, no descompasso
nunca esqueço minha sorte
lanço dados com a morte
fundo corte do que faço.
sexta-feira, agosto 10, 2012
Mesmo Quando
sempre me surpreendi que a palavra "mesmo",
ainda que tenha uma função assertiva, de confirmação
traga em sua narrativa uma parte a esmo, sem direção,
a suspeição enferma de sua própria condução,
certa predileção por abismos ermos,
por erros sem perdão, e por perdermo-nos sem conta.
a tonta compreensão, e sua feição de esboço
o torso hirsuto e a timidez de suas mãos úmidas
a sólida incerteza a nos abençoar escolhas
ainda que as folhas do livro fatal durmam entreabertas
jamais livrar-se do espanto das descobertas,
e dos enfados pressupostos
valham-me ainda os rostos das palavras
revisitados sob o escopo da vertigem
sua imagem repartida ao infinito
dos espelhos postos frente a frente
a medida transluzente de suas inflexões,
sempre sabendo a origem e voragem,
ora retornando ao chão semântico,
ora alçando cânticos de coração.
será assim que o advérbio "quando"
mesmo tendo intacta a interrogação imanente,
trará, urgente, uma porção móvel, as pernas inquietas
de significados, a multicolorida paleta dos poetas,
a noção aberta entre tempo e movimento, história e ação.
a vaga invenção, e sua lição de esforço
a taça súbita, enchida ao transbordo das intenções
a memória das ilusões propositais
seus estratagemas súditos de alguma atenção ingênua –
a tênue alma do fonema, a palavra que vibra em voz
quando a foz abre-se oceânica
mesmo que o canto seja lacônico.
quinta-feira, junho 21, 2012
Poema de Não Acordar
de olhos fechados um pouco mais
pra não deixar misturar
o mar adentro com tanto
acordar
o escuro de fora, a luz de
dentro
espera agora até
capturar
a chave-mestra, o desalinho
um pergaminho feito a
sonhar
é que o desfeito da
vigília
pode transformar em ilha
tudo o que significar
e o porto abreviado, a
árvore
da infância, o sexo doce
da moça sem posse, toda
a fábula que ordenhas
pode desordenar a senha
secreta, mergulhada na
lagoa
de
olhos noturnos, a semente
coroada, abrigada pelo
útero
da fulgurância de
nascentes
quer velar aquilo que revela
e que na manivela do
invento
mais ainda torna intento
o momento em que
desmantela.
segunda-feira, maio 21, 2012
Sonho Virado
eu saio onde se por a linha do escritor
o sol horizontal da música na cor
bordado em ponto cruz a padecer
lilás
na sua mão, cinema do cantor
divago em verso, e cai a noite ocidental
teatro tão lunar dos corações em vão
filosofia audaz que envolve o tempo e
traz
essa canção, e a invenção de ter nascido
insone
meu sonho virado, imerso no abraço
do que não sei, cantado
na sanha da paixão, na lira da maré
o sonho que trago no peito marcado
na contra luz, recado
lançado ao mar, ao vento, ao léu
a revelar o que se é
eu sei o que seduz a curva das manhãs
componho o que se dá na língua dos xamãs
retalho desse céu da arte, leite e mel
da intenção, vertigem do que sou
assumo a voz do chão, desenho a
escuridão
com nuvens e pincel, esculpo a
direção
do sopro que traduz, e ponho na
canção,
morada sã, a guardiã de tudo que é sem nome.
*letra escrita para melodia de Floriano Santos
quarta-feira, maio 02, 2012
Os mapas viventes
renascer não é um sortilégio de
todos os dias
mas de todas as horas
é saber-se orvalhado na flora, e
forjar-se arvoredo
e retornar ao fundo profundo
segredo
trazendo de lá a água turmalina,
o âmbar almiscarado de tardes ao
vento,
e dos anoiteceres lentos banhados
na areia branca
dos lugares onde nunca pisamos
mas que revisitamos, ultrapassados
de éter e fleuma
algures fantasmático, hipótese da
miragem reincidente
um acidente trêmulo nas mãos do
tempo
o festim da intempérie íntima, a
nuvem
de um balbucio amoroso.
desse poço que cavaste ao longo
das translações,
e da promessa de primaveras
emergirá o balde transbordante da
manhã de teus anos
as quarenta elegias clavadas
na bordadura inesperada de muitas
gratidões
a ti, que exististe até agora,
persistindo
em humanidades conquistadas
e ao teu duplo, que reparte em
muitas outras direções
os teus mapas viventes, caiados de
futuro.
quinta-feira, março 22, 2012
Canto que ama e ondeia
Há muito que me sinto devedor de mais escritos sobre a cidade em que vivo. Há muito que poetas e compositores dedicam obras à Santa Maria de Belém do Grão Pará, mormente exaltando suas belezas naturais, a generosidade e calor humano de seu povo, sua diversidade cultural e culinária únicas. Decerto que não pretendia chover no molhado, e já há algum tempo venho exercitando pequenos escritos sobre aspectos que me afetam desde que vivo aqui, há quase 40 anos. O presente texto, escrito para uma incrível melodia do compositor Floriano Santos, é, sem dúvida, um dos resultados que me deu mais satisfação até agora, por dar conta dessa relação de amor e ódio que temos com a cidade morena - esta mesma que é tratada como uma puta da Riachuelo, não apenas pelos seus governantes, mas muitas vezes, por nós mesmos, seus habitantes.
Canto a
minha terra que se enxergará
Nessa
guerra santa entre o que será
E o que
fora indício de inocência vã
Canto esse
desterro da incerteza cidadã
Meu canto
arde em fogueira equatorial
Dança no
sonho, gira ciranda,
Tarde, encharca
o vento terral.
Canto esta
cidade onde cabe um grão
Morena
sangria, na planície a mão
De um
lirismo cego, nesse quarador
Seca sem
juízo o lençol sujo desse amor
Os humores
da terra, inverno fatal
Baque no
peito, pisa na areia
Ergue a
saia, sua, serpenteia.
Entre na
roda, baila morena
Faz do
corpo um vendaval
Pula no
fogo, joga os cabelos
Faz dos pelos
teu punhal
Me faz
querer dessa maneira o teu cheiro,
Tuas ruas,
praias nuas, tuas pernas a me desandar
Entre na
valsa, ousa num salto
Fala alto
o que quiser
Molha a
cidade, vaza no rio
Vela, círio,
cio, mulher
Me faz
morrer no cais da beira, numa feira
Na
ribanceira, descendo a ladeira, a noite inteira a febre
Pula a
baia, voa, cambaleia.
Canto a
minha aldeia, a fazenda, a vau
A
vergonha, a lenda, esgoto e canal
Canto que
se ondeia, fúria do perau
O subúrbio
sonha a ilusão do litoral
Maria,
terra e fêmea, flor do grão, fará
Desse meu
canto um novo encontro
Onde a
minha voz te incendeia.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
Canto Cativo ou O Épico das Distâncias
I
Penso agora então: que quer dizer
cativar?
Seria ter na mão o ouro baço,
a forja serena, a cantilena mágica
de deidades secretas?
Seria ter na mão o ouro baço,
a forja serena, a cantilena mágica
de deidades secretas?
Ou que seja a aventura cega dos poetas,
a urdidura ancestral profetizada na clausura?
Há sempre um novo engodo que medra na origem,
A vertigem da fundura suposta, o erário consumido a doces golpes conquistados.
Tornar-se cativo seria então uma revelação
De sims e nãos que concordam mudamente
Delicadamente cortejam-se, alheios a necessidades pragmáticas,
Apenas reviram-se na areia lúdica, como cães finalmente felizes.
O que somos, afinal? Conhecemo-nos o bastante
Para ousar querer saber o outro?
Saberíamo-nos o bastante sem a mediação do outro?
II
Agora sou a tarde equatorial,
intumescida de nuvens brancas e
cinzentas,
Sou a úmida verdade nas árvores suburbanas,
Sou a úmida verdade nas árvores suburbanas,
a voz inventada naquele bolero abandonado
de cais
O porto e suas direções feitas a ventos e água
E tu, minha pequena rosa branca,
O porto e suas direções feitas a ventos e água
E tu, minha pequena rosa branca,
assinas teu nome com a seiva alva do
inverno
em pleno peito da primavera.
Tu, que até pouco tempo eras uma quimera desconhecida,
Um belo sonho cujo enredo se esquece ao primeiro bocejo da rotina,
Agora te tornas outra chuva sobre a florada estação das carícias,
Inquietas o corpo e o pensamento, apenas por existires, longínqua,
guardada na redoma daquele planetinha...
Minha vinha avassaladora, minha amora abocanhada pelo dia,
Minha marinha e meu cordel teso,
Meu peso e minha fome sem medida,
Minha comida e meu pasto febril,
Minha tarde branca, meu leite,
Meu deleite e minha letra branda,
És tu quem comanda o levante
De antes de fevereiro, aos estertores de abril.
És tu quem acorda o dia nas fotografias,
e nos lábios entreabertos expirando o
voo,
E recortas, com teu perfil de Helena,
As alfazemas impolutas em meus olhos índios.
E recortas, com teu perfil de Helena,
As alfazemas impolutas em meus olhos índios.
III
Te abençôo e evolvo ainda mais na direção
desejada,
Coroando-te os ombros, os tapumes macios que envergas, os delitos eleitos,
Erguidos acima das vergonhas pudicícias,
Com minhas mãos em concha, deitando-te as pérolas do toque,
E revejo a malícia adolescente nas travessuras onde tresandamos os gemidos,
Onde volitamos serpenteando nos ouros de Klimt, nas mucosas de Schiele, nas rosas rasteiras de Monet, nos interstícios quase invisíveis de Seurat.
Coroando-te os ombros, os tapumes macios que envergas, os delitos eleitos,
Erguidos acima das vergonhas pudicícias,
Com minhas mãos em concha, deitando-te as pérolas do toque,
E revejo a malícia adolescente nas travessuras onde tresandamos os gemidos,
Onde volitamos serpenteando nos ouros de Klimt, nas mucosas de Schiele, nas rosas rasteiras de Monet, nos interstícios quase invisíveis de Seurat.
E tudo o que mais será já nos pertence,
Como pedras e galhos abandonados pertencem ao caminho,
Como o ninho donde se vai o pássaro ora silente, guardando seus saltos primeiros,
Como o vago forasteiro adivinha onde estão os que o alimentarão na cidade inédita,
E a coragem análoga é a de um beduíno curtido a sois infindos,
Cuja aventura seja a de obedecer o instinto dromedário,
E em si armazenar a água essencial da esperança,
Sabendo poder cruzar desertos sem sucumbir a loucura de miragens equívocas.
Tu, que provocas a paisagem com intentos quase secretos,
Que dispõe dos objetos como fossem fetos de idéias outras,
Como fossem sempre simbólicos
De uma possível infância preservada
Nas caixinhas de eternidade - as tuas meiguices douradas no privilégio de auroras.
IV
Agora eu te reconheço bem, dama dantes
oculta,
Tua quixotesca sanha não me parecia estranha,
Tua tamanha sede justíssima e grave, o teu algarve íntimo,
A abadia voluntariamente anônima de tua escritura, ora evidente
Os teus dentes alarmantes, perfilados na concha úmida e rosácea da boca pequena,
As tuas melenas entrecortadas, menina,
Reinventadas por ti!...
Tua quixotesca sanha não me parecia estranha,
Tua tamanha sede justíssima e grave, o teu algarve íntimo,
A abadia voluntariamente anônima de tua escritura, ora evidente
Os teus dentes alarmantes, perfilados na concha úmida e rosácea da boca pequena,
As tuas melenas entrecortadas, menina,
Reinventadas por ti!...
Teu arado autônomo, o fenômeno irrepetível de teu croquis cinemático,
Assaz romântico o teu abandono
De tudo o que te prendia ao conforto
Da vida abastada e aristocrática.
Reconheço tua democrática visão do mundo
Através do olfato: a bússola pronunciada que trazes à face de tua obra,
Três palavras apenas, a pequena herança confeccionada
Para dirimir culpas prisioneiras,
Tuas estribeiras perdidas ao chá das cinco,
O afinco com que somas digressões pelo vasto continente
A registrar-lhe, aos goles da lágrima e da lâmina leniente da câmera cinética,
Sua estética vaga, quase um sortilégio presenteado,
E suas personagens desenhadas pela dramaturgia inclemente da própria vida.
V
Reconheço-te Perséfone e Pandora, paridas
de teu próprio ventre,
És a mãe de ti mesma, e és tuas filhas, elencadas ao fragor
Do instante em que necessitas delas.
Podes ter a carranca aguerrida da amazona sanguinária,
E em seguida despir-te, lânguida, como Psique apaixonada,
Deitando aos pés de Eros as oferendas lúbricas e leves
De tua intimidade rara.
És a mãe de ti mesma, e és tuas filhas, elencadas ao fragor
Do instante em que necessitas delas.
Podes ter a carranca aguerrida da amazona sanguinária,
E em seguida despir-te, lânguida, como Psique apaixonada,
Deitando aos pés de Eros as oferendas lúbricas e leves
De tua intimidade rara.
Tua vida, a arma que disparas, bravia
O estopim aceso, que ameaça a explosão
Também o rio que acelera na correnteza, irreprimível
E o vento, este que bate minhas portas e janelas,
E me arranca páginas das mãos.
As tuas duas gemas da visão, as jóias
Que emergiram escuras da clarabóia luminosa
daquelas primeiras imagens,
Esses teus olhos moços e sinceros
Entregam-se ao esmero de serem janelas veladas
Por cortinas diáfanas, entre o âmbar e o nácar,
E ousam pisar terrenos proibidos sem temer ferir-se
Com o mesmo ferro da neblina com que fui ferido.
Esses teus olhos moços e sinceros
Entregam-se ao esmero de serem janelas veladas
Por cortinas diáfanas, entre o âmbar e o nácar,
E ousam pisar terrenos proibidos sem temer ferir-se
Com o mesmo ferro da neblina com que fui ferido.
Pois quero mesmo que esses olhos teus risquem-me o peito,
Feito facas em brasa, e que a asa
Do dilema finalmente se abra,
Dispersando em seu voo o negrume
Pelo lume da tarde em que estou.
VI
Observo, atento às tuas escolhas,
Pra onde sopram as folhas deste outono,
E embora o sono me vença de vez em quando,
Sei que ando vigiando pra além do próprio abandono,
Além de Cronos e Hélios, o esforço
insano em manter-me acordado dentre as divagações oníricas.
Pra onde sopram as folhas deste outono,
E embora o sono me vença de vez em quando,
Sei que ando vigiando pra além do próprio abandono,
Além de Cronos e Hélios, o esforço
insano em manter-me acordado dentre as divagações oníricas.
Meu lirismo tem-se portado como um bicho selvagem,
De súbito à solta na paisagem urbana,
Desordena os transeuntes, arreganhado nas praças e coletivos
Com a lassidão típica dos amantes fortuitos, o uivo dos bugres cativos,
Meu lirismo ecoa na garoa insistente da baía,
E se esvai na valsa intermitente desses dias, na contagem regressiva
Do encontro aguardado por nós,
E guardado nas letras de Cícero, nas bravatas de Whitman, na paixão de Hilst.
O emblema mudo que traremos nos corpos, depois,
Quando fragatas cruzarem os mares de nós dois, e souberem
Que há pétalas caindo ao léu, no tombadilho deserto,
E que os homens enlouqueceram, e querem fugir
lançando-se aos krakens e serpentes marinhas,
Fulminados pelo sentimento pueril da entrega sem reservas,
Isso antes mesmo de emergirem sereias com seus assassínios vocais,
Eles já precipitados na direção de Atlântida, as guelras pululando das carótidas,
E a sorte será um cais donde volvam talvez a salvo,
Quem sabe a nado, ou a boiarem, roídos de algas e medusas,
As mentes confusas entre o que foi, e o que nao é
Contudo, finalmente pacificados pela coragem maruja.
VII
Esta seja a garatuja da hipótese inscrita
Naquilo que grita evidente em tais sinais que reconhecemos desde o início,
Do fio de sangue no pulso, ao ano de nascimento das caixas de palavra,
Tudo o que já confirmava causava o susto do estranhamento,
Em ganhar de graça o alento do que parece ser raro,
"pois pode um caminho se abrir assim tão claro?".
Naquilo que grita evidente em tais sinais que reconhecemos desde o início,
Do fio de sangue no pulso, ao ano de nascimento das caixas de palavra,
Tudo o que já confirmava causava o susto do estranhamento,
Em ganhar de graça o alento do que parece ser raro,
"pois pode um caminho se abrir assim tão claro?".
Redobro a atenção, e preparo um navio lento,
um atavio irresistível, retomo o fio da
meada,
Renovo a moeda de troca com a vida, restauro o tesouro verdadeiro
Estar inteiro e pronto ao que se apresenta imprescindível,
Fazendo do possível um intuito e um espanto.
Renovo a moeda de troca com a vida, restauro o tesouro verdadeiro
Estar inteiro e pronto ao que se apresenta imprescindível,
Fazendo do possível um intuito e um espanto.
Meu canto a ti se esparge largo, ao infinito,
Resfolegando, lúcido e vivo, pelas balaustradas e platibandas,
Avança pelas varandas interioranas da infância cristalizada,
E move-se a galope na seara sertaneja.
VIII
Tudo quanto veja doravante
Com os olhos recém despertos de um torpor de eras
Converge agora para uma estrela supernova,
A prova cósmica de que preexistíamos ao choque dos meteoritos,
E que mesmo os ritos imemoriais de nossos ancestrais nativos
Já contavam os mitos incréus desses céus impensáveis,
Donde surgíamos a cavalgar corcéis de fogo, as mãos crispadas de raios,
E os vassalos nossos eram semideuses de culturas diversas,
Cada um com sua oferenda específica,
E a fúria do que sentíamos só se satisfazia no sacrifício brando
De ramalhetes sangrados à beira do mar,
De festas e danças que varavam semanas insones, aos goles da alegria,
De crianças gretadas de cataventos e risadas que surgiam,
Brotadas de ventres de madrugadas,
E ainda de novas histórias inventadas pelas mentes entorpecidas
Dos viajantes e dos camponeses, do povo entregue a algaravia histriônica do Carnaval -
A carne do temporal, o sangue da maresia, os ossos da utopia,
Com os olhos recém despertos de um torpor de eras
Converge agora para uma estrela supernova,
A prova cósmica de que preexistíamos ao choque dos meteoritos,
E que mesmo os ritos imemoriais de nossos ancestrais nativos
Já contavam os mitos incréus desses céus impensáveis,
Donde surgíamos a cavalgar corcéis de fogo, as mãos crispadas de raios,
E os vassalos nossos eram semideuses de culturas diversas,
Cada um com sua oferenda específica,
E a fúria do que sentíamos só se satisfazia no sacrifício brando
De ramalhetes sangrados à beira do mar,
De festas e danças que varavam semanas insones, aos goles da alegria,
De crianças gretadas de cataventos e risadas que surgiam,
Brotadas de ventres de madrugadas,
E ainda de novas histórias inventadas pelas mentes entorpecidas
Dos viajantes e dos camponeses, do povo entregue a algaravia histriônica do Carnaval -
A carne do temporal, o sangue da maresia, os ossos da utopia,
a brecha do fatal.
IX
Trafego agora, trôpego, entre nuvens de
cá e lá,
Calado, sem querer perturbar os anjos que dormem a sesta,
Nesta tarde de sábado, ouço rumores de serestas e saraus vindouros -
Ou seriam os anteriores, quarados na lembrança feito lençóis de avós?
Ouço argumentos em delírio, "é Carnaval!... é São João!..." os fogos a pipocar seus estampidos moleques,
Os bricabraques pelas praças, lançando velhos almanaques do séc XIX,
Salamaleques de saltimbancos irrompem brincalhões em meu peito ansioso.
Calado, sem querer perturbar os anjos que dormem a sesta,
Nesta tarde de sábado, ouço rumores de serestas e saraus vindouros -
Ou seriam os anteriores, quarados na lembrança feito lençóis de avós?
Ouço argumentos em delírio, "é Carnaval!... é São João!..." os fogos a pipocar seus estampidos moleques,
Os bricabraques pelas praças, lançando velhos almanaques do séc XIX,
Salamaleques de saltimbancos irrompem brincalhões em meu peito ansioso.
Ouço gozos, ouço gemidos ungidos com o óleo divino do desalinho sincero,
Ouço boleros, sambas e marcha-ranchos, ouço o tropel mais ancho
De uma cavalhada no horizonte belo,
Ouço o desmantelo de cárceres e grilhões, ouço as vozes de multidões de outros seres invisíveis, e ouço ainda
A tua voz, nítida, vencendo a turba febril
Com delicadeza de fêmea e filha, de mulher e marulho, com firmeza de mergulho aprumado
Até o fundo perau dessas vaus invictas,
Convictas de seu patamar inalcançado.
Ouço a ti, via láctea, pó de estrela, ouço a ti e a mais ninguém nesse momento,
Ouço a centelha da vela solitária,
Ouço a ária composta, e nunca executada,
Ouço a fada, a sílfide, a Hécuba, o Ágape
Ouço e não duvido, porque o olvido destarte inopera,
E a fera indizível, já cantada, orbita agora num'outra esfera,
Feita de um sonho puro, um ouro claro, um desmascaro além do muro
Que te nubla a visão do futuro.
X
Eis as fontes, viajante... De qual água
beberás?
Eis os montes de cá, contrastando com tuas planícies do norte...
Eis os montes de cá, contrastando com tuas planícies do norte...
De que morte morrerás?
Eis a plêiade, extinta a milênios, seus fulgores a viajarem o universo até os teus olhos... Em que brilhos crerás?
Eis a estrada, e suas muitas bifurcações, esse jardim de Borges...
Eis a plêiade, extinta a milênios, seus fulgores a viajarem o universo até os teus olhos... Em que brilhos crerás?
Eis a estrada, e suas muitas bifurcações, esse jardim de Borges...
Em que alforje trarás a bússola?
E se enlouquece a rosa dos ventos, neste intento que te assola... Em que mola terás o impulso do salto?
E se empalidecesses de medo, e lhe paralisassem as veias, em que veios extrairias a substância dos significados?
E se enlouquece a rosa dos ventos, neste intento que te assola... Em que mola terás o impulso do salto?
E se empalidecesses de medo, e lhe paralisassem as veias, em que veios extrairias a substância dos significados?
XI
Bem compreendido, o sentido será um jorro multiplicador de sempre variada semântica,
Arrancando ao cotidiano prosaico o seu mais farto ensejo,
é assim então que desejo esse encontro marcado, essa épica jornada entre dois seres que vencem distâncias,
Essas as mais diversas e possíveis quanto se as metaforize,
Quero e acredito nessa beleza, mas não cegamente,
Antes vidente, visionário, adivinho e taumaturgo,
Pois sei haver uma curva donde não se vê adiante,
Mas na qual se crê, naturalmente, porque o caminho serpenteia,
Corcoveia íngreme, ladino feito o próprio destino,
E que nos surpreende meninos, sem temor de floresta e trilhas,
Abrindo picadas, aprendendo os nomes dos bichos e plantas,
Assobiando a fala de passarinhos,
Resguardando nos olhos tantas maravilhas.
XII
Estes somos nós, menina, prestes ao desvelo,
À beira do abandono são de um no outro,
Nós, a empunhar uma vez mais o libelo do amor
De encontro a frieza mouca do mundo,
Nós, no fundo reino guardado, na dobra do abraço,
no traço da origem, na margem do
rio vivo,
Eu e tu, fincados no restolho da paisagem,
Dados à viagem repentina de corvos nas plantações de milho,
De garças ao desmaio da tarde, alarde inconsútil, ensaio de brisas.
Eu e tu, fincados no restolho da paisagem,
Dados à viagem repentina de corvos nas plantações de milho,
De garças ao desmaio da tarde, alarde inconsútil, ensaio de brisas.
Sabe-se onde pisa quando o chão nos responde com firmeza,
E onde a beleza nos alerta com a seta da surpresa
Apontada para a meta prevista,
A provável ametista de uma joia semeada.
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Quem sou eu

- Renato Torres
- Belém, Pará, Brazil
- Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012), Antologia Eco Poético (ICEN, 2014), O Amor no Terceiro Milênio (Anome Livros, 2015), Metacantos (Literacidade, 2016) e antologia Jaçanã: poética sobre as águas (Pará.grafo, 2019). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), e em 2019 lança o álbum solo Vida é Sonho, autoproduzido no Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.