quarta-feira, julho 27, 2016

Bruxismo

                                                                            para Lou Reed

trincam-me os dentes à noite
rachando sob o peso dos sonhos

o seu mármore inquieto range

sob o firmamento calado

entre o ronco e o enfado

o estômago aflige o esôfago
num afago ácido de onda

demanda de si a barganha

da rinha cotidiana irresoluta

inflama a luta desigual

entre o possível e o improvável

rompe, do siso ao juízo,

o seu improvisado diamante

dentifrícios e antissépticos 

ardem sua fogueira deliberada.

trancam-me os dentes à chave
pra fora do corpo dormente:
lá dentro esbatem-se as palavras
como minúsculas serpentes sob a língua
(
na água escura da noite gemem
como as tábuas de um velho barco)

sob o arco abobadado, cravado 
de aftas e abcessos, assoma o recomeço
um acesso cauterizado pela dor

a arca corroída se abre em nervos

através do canal devastado

malgrado o dever involuntário

da moenda e guilhotina diárias
a arcada dentária enverga
sua moldura identitária no riso
ou na fúria que nela se imprime - 
ou reprime - num bruxismo insone.

segunda-feira, maio 02, 2016

Dentes e sal

"resolveu celebrar universários"
relia naquele poema enquanto ajeitava-se 
à roda de uma fogueira - a velha estrada 
que atravessava, e onde reunia-se continuamente 
com os desconhecidos de um sonho.

a mais nova entre eles surpreendeu-se: "44?
mas como, viajante? onde descobres a fonte infante?"

respondeu com um meio sorriso, porque
naquela tarde específica o calor era terrível
e o cansaço amealhava pequenas dores
como um ramalhete intermitente.


"não tenho nenhum segredo, a não ser dentes e sal"
ela intrigou-se ainda mais: "dentes e sal?"
decidiu recostar-se na pedra do caminho,
a cabeça encaixada, os olhos estrelados
 
"veja: mesmo nessa tarde solar
é possível ver estrelas... elas vagam na retina
como protozoários inquietos"
.


a pequena nem considerou a digressão,
pertinaz em seu inquérito: "queres dizer
dos dentes que usas para comer, do sal
da terra que te sustenta o corpo?"

dessa vez a olhou cuidadosamente nos olhos
(como convém olhar toda criatura que os têm)
e lentamente abriu um sorriso completo,
que evoluiu até uma levíssima risada.
parece ter funcionado, porque ao contágio
os olhos dela também riram, e a moça finalmente
mostrou os dentes que tinha - e eram belos.


"quanto ao sal", disse a ela "é bom que desperte
sempre que o coração sangrar, pela luz do olhar.
ele o conservará, não o deixará apodrecer.
não há nada pior que um coração apodrecido"


nesse momento, a menina se deu conta:
estava longe, muito longe de casa,
longe daqueles que conhecia e amava,
longe do próprio sentido da longa viagem,
longe da vigília, longe de si mesma,
longe do perdão, e apesar de ter tentado,
não conseguiu manter-se longe da própria dor.
sorriu desconcertada ao universariante, os
olhos afundados na ressaca do mar


e chorou.

terça-feira, julho 14, 2015

Aqueles homens


aqueles homens vêm anestesiados
socando a ponta de uma faca lerda
fazendo mímicas pra gente cega
gente que chega, e não sabe por que

ninguém dorme com a cabeça no espelho
ninguém velho que morrer antes do tempo
ninguém tenta o suicídio quando criança
e nem dança ao meio-dia
à plena luz do meio-dia.

aqueles olhos têm dois olhos que são meus
que se debruçam na janela do arranha-céu
eu sei de todas as dores
sei pintá-las de mil cores
e gosto de olhar o mar
de embriagar

aqueles homens dormem com fome
têm sede de estar com outros homens
acordam com preguiça de respirar.

(1993)

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Universário


para Cláudia Torres
cansado de entreter-se
em calendários
resolveu celebrar
universários

para tanto
reuniu entretantos
ao erário tonto da rotina
iluminando a lâmina
diamantina
d’um dia qualquer
com o fogo de acolher
seus nascituros

os astros obscuros
pelo espaço enfim notaram
que às curvas de seu mapa
enviesaram as casas,
e a cabeça do dragão
a meio do céu
cuspiu labaredas

o corcel das veredas
apeou seu galope
e a golpes de mote
escreveu sua sorte
nas frinchas, nas brechas,
onde a morte empresta cor
aos que vivem sem temor.

quarta-feira, novembro 05, 2014

O Ódio

à memória urgente do massacre guamaense

dizem que o ódio é um bicho morto-vivo
primitivo, vem das lendas borgianas
recolhidas entre uma e outra pálpebra
depauperada das canalhas insones


dizem que o ódio é sem nome, mas sempre
assume vestes e corpos de homem,
enverga mosquete, clarim, alforje, seta e besta
e se infesta silenciosamente pelos
roncos da sesta do bairro suburbano


dizem que o ódio é uma invenção dos humanos
que por sua vez, dizem nada ter a ver com ele
sua pele viscosa tem, por vezes, a libido e a bile
misturadas como numa saliva babada incontinente


dizem que o ódio é demente, e nem sente
sua própria existência, é como uma carência
que mente, enquanto tenta provar inocência
põe a forca em pescoços infantes, e deseja
o quanto antes, que seja coroada sua ânsia
por vingança, por preguiça, por ciência.


quinta-feira, julho 10, 2014

O medo (ao espelho)


  tenho medo de mim mesmo
de mostrar-se o meu segredo
  de meu dedo apontando-me
o degredo que não cedo

  desse deus medido a ego
de me doer desapego

  se me pego andando a esmo
tenho medo do que cismo
  desse abismo do que medro
e do cedro em que espasmo

  tenho medo dos miasmas
dos fantasmas que não vejo
  não invejo a rouca asma
que se esconde em meu desejo

  tenho medo de mim, próprio
ao colóquio desse espelho
  tenho em mim o temor velho
o entulho ardendo, o ópio
  da paúra que arruina

(tenho medo, eis mi'a sina)

a assassina covardia 
  preme os olhos, assustada:
nada vê além da queda
  em si mesma, assoberbada

tenho do medo a ferida
  desd'a origem abobadada
domínio algum da vida –  
  essa égua desabrida
essa mula decapitada

  tenho medo de ser nada
este um que me suponho
  meu pensamento medonho
é o desenredo tamanho
  cujo lanho vaza o sonho
envenena o próprio punho
  rebenta o grito de estanho
corroído desde o sumo

(tenho medo desse estranho).

quinta-feira, abril 03, 2014

Canção imaginada


a palavra é só
no silêncio, escolhe a cor

a palavra dita
não evita o corte, a flor

permanece o som 
do que mira no deserto
chega ao coração 
a canção que imaginei 
sem saber

bem mais perto
cobre a solidão
do mais secreto mundo que houver

ouve, atento, por dentro 
o que não diz
palavra e vento
feito lava a arder


a palavra é sal
a saudade é seu pudor

a palavra grita
interdita a morte, a dor

amanhece o pó do que vira
louca em sonho
sangra o coração 
a canção que imaginei 
sem saber.

Quem sou eu

Minha foto
Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), inicia a produção do CD Vida é Sonho, quando inaugura o Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.