terça-feira, agosto 28, 2012

Nu e cru

sou nu e cru como sempre
unha e carne com o perigo
ando bem leal comigo
da cabeça ao baixo ventre

os meus pés eu deixo à solta
para irem sem destino
sou o homem e o menino
pelo mundo sem escolta

mas escuto o que me falam
as canções e os amigos
choro, bebo, berro e brigo
por tudo aquilo que calam
 
e por tudo o que sangra
estanco à minha maneira
com metal, fogo e madeira
da viola à voz que singra

atravessa a vida a nado
num estado de urgência
repetindo em mim a ciência
do mistério desvendado

sou tal e qual desde o berço
desde antes desta vida
tenho a alma repartida
entre o que peço e mereço

nu e cru, no descompasso
nunca esqueço minha sorte
lanço dados com a morte
fundo corte do que faço.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Mesmo Quando


sempre me surpreendi que a palavra "mesmo", 
ainda que tenha uma função assertiva, de confirmação
traga em sua narrativa uma parte a esmo, sem direção,
a suspeição enferma de sua própria condução,
certa predileção por abismos ermos,
por erros sem perdão, e por perdermo-nos sem conta.

a tonta compreensão, e sua feição de esboço
o torso hirsuto e a timidez de suas mãos úmidas
a sólida incerteza a nos abençoar escolhas
ainda que as folhas do livro fatal durmam entreabertas
jamais livrar-se do espanto das descobertas, 
e dos enfados pressupostos

valham-me ainda os rostos das palavras
revisitados sob o escopo da vertigem
sua imagem repartida ao infinito 
dos espelhos postos frente a frente
a medida transluzente de suas inflexões, 
sempre sabendo a origem e voragem,
ora retornando ao chão semântico, 
ora alçando cânticos de coração.

será assim que o advérbio "quando"
mesmo tendo intacta a interrogação imanente,
trará, urgente, uma porção móvel, as pernas inquietas 
de significados, a multicolorida paleta dos poetas,
a noção aberta entre tempo e movimento, história e ação.

a vaga invenção, e sua lição de esforço
a taça súbita, enchida ao transbordo das intenções
a memória das ilusões propositais
seus estratagemas súditos de alguma atenção ingênua –
a tênue alma do fonema, a palavra que vibra em voz
quando a foz abre-se oceânica
mesmo que o canto seja lacônico.

Quem sou eu

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Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), inicia a produção do CD Vida é Sonho, quando inaugura o Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.