terça-feira, agosto 04, 2009

Fortuna

Então, cubra de delicadeza esse corpo já deitado em palavra,

e com a lisura vagarosa do tempo, ouça o trote longínquo,

a moçada gritando aos bardos, aos bandos,

naquela clareira, em estrépitos de argúcia;

as fogueiras sempre foram feitas de gente,

e toda a gente sempre correu fora da luz.


por onde andares, levarás contigo a clava diáfana,

e por onde falares, deixarás comigo a tua armada, armadilha feita de sopro:

a concha de tuas mãos, o rescaldo da inércia, o vinho que envelhece subterrâneo.

e quando voltares, isso será o vazio, uma casa à espera do corpo,

da palavra, e de tudo o que se escondeu diante da terra.

será como a visita de um sonho, essa porta que se abrirá, silenciosa, na madrugada

e a mãe, sentada ao lado da cama do filho.


portanto, dobra desde já esse teu manto feito de escolhas,

e te aproxima da antiga morada -

é na distância que crestam luzes,

e o tempo se cobre de sombra e sol.

deixa as sobras aos que padecem sob tua mesa

enquanto comes, delicadamente, a fortuna dos dias de sorte.


escrito a quatro mãos com Daiane Gasparetto, 4.ago.2009, msn, 13:45.

Quem sou eu

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Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), inicia a produção do CD Vida é Sonho, quando inaugura o Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.