quinta-feira, dezembro 13, 2012

Leva teus sonhos a sério

Leva teus sonhos a sério -
não são tão somente mistério
são antes o instante largo
o charco da intempérie íntima,
insuspeitada, o sótão onde dormem
teus choros engolidos da infância,
e toda tua ânsia adulta
resulta desse acordo tácito
entre a vigília absoluta, e a
tua incapacidade em viver-lhe
a frieza cartesiana

Teus sonhos são a sanha
irreprimível da natureza, que
repete a destreza do que mentes
co'a semente do fulgor imaginado
lembra do que foi sonhado
ainda que inventes a narrativa
da furtiva janela entreaberta
onde a bela mulher que espera
o inesperado jamais mostra o rosto
lá tudo está posto, tudo dito
da afasia do infinito à nitidez
do frágil presente

A inquieta luminescência, o roteiro
fragmentado, o realismo fantástico,
a sombra aterrorizante, o 
prazer irrepetível, a anedota,
o enigma, o anagrama, a parábola,
a runa e o arcano, todos os teus
enganos, solucionados a um só talho,
de um só gole, golpeados a frio,
no vazio de existires, de resistires,
de, por fim, insistires na ignorância
do que acode, ostensivo feito 
enormes ondas salgadas na areia,
a cada noite em que vagueias,
e dormes.

12 comentários:

Fabiana Leite disse...

com você tenho aprendido a ouvir sonhos e deles extrair sentidos. não são nós cegos, antes redes que nos pescam do vazio. e quando acordo não é um mero sabor que me toma, mas frescor raro de mergulho. há cores, corpos e sons. lembranças, sabores e rios. os sonhos podem mais em mim do que supunha. ainda posso voar...

Flaviane Leão disse...

Faz-me chorar...de novo?!
Pois me vestes com teus poemas, me travestes do descrito, e desnuda, me pego no teu caminho azul que brilha.

Sempre encontro o "puer aeternus" mas desta feita, acompanhado da mais madura pena, e de voz - cuja contundência corta mais que faca afiada.

Aí... choro!!!

Anônimo disse...

Nossos sonhos... Mesmo que não os levemos a sério, não importa: eles nos levam a sério, e insistem, caso não queiramos escutá- los!
Parabéns pelo poema!
Bj
Ana Guimarães

Day Suqui disse...

Sonhos são girais de nossas grandezas fundas, nossa natureza anfíbia, nossos animais mergulhados, guerreiros ferozes de nossa cura. Deuses cochichando o nosso enigma em vocábulos celestiais. Nossa metade divina irrepressiva, desreprimida, a claraboia de nossa sombra. Nossa noite querendo abrir os olhos e alvorecer a pupila do nossos mitos e memórias sábias em carne viva. Todas as coisas de vento, de pedra, de mim suspensas no fulcro dos sonhos. Toda a minha substancia também não vivida, a palavra não dita o meu encontro tão aguardado .O meu amor livre. Essa noite tive um sonho, estavas nele, estavas de azul... feliz 2013 pra ti tb!

Patrícia Ferreira disse...

eu levo ... sempre levei! respeito todos eles ... são sagrados!

Renato Torres disse...

Fabiana,

teus sonhos, sabes, permaneceram por algum tempo adormecidos, em espera. é possível também que, como numa canção de Caetano, tenhamos cinzas de sonhos mortos sobre nós, como numa chuva gris... mas é certo que, mesmo reduzidos ao pó de estrelas, eles navegam, feito luzes migrantes, até nos encontrar, distraídos, diante da gema da fabulação, donde volvemos tontos, quase prisioneiros do olvido.

beijos,

r

Renato Torres disse...

Fla,

teu choro renova o que escrevo, batizando com a bênção marinha de nossas jóias primeiras, derramadas desde o momento do nascimento. sabemos que tudo nasce (e nascer, uma alegria que dói, como em Galeano), e que mesmo morrer é um espelho desse brilho indutor... sigamos na trilha azul, minha amiga!

beijo,

r

Renato Torres disse...

Ana,

pegas o âmago da questão, e é fato: os sonhos nos levam a sério, e são como os anjos, que nunca se afastam de nós - nós é que os afastamos... estão sempre por perto, à espreita; são a tal porta estreita por onde só passam os que se propõem, manoelescamente, a transver o mundo.

beijos,

r

Renato Torres disse...

Day,

libertas o sonho em ti a partir do que escrevo... e que bom isso é! é como um objetivo básico da poesia alcançado, que corporificas, porque a palavra também é corpo. siga mergulhando mais e mais fundo nisso, nessa transposição de linguagens, que pode, sem dúvida, te fazer chegar a corporeidade que significa sem mais ter de ser mera tradução.

beijos,

r

Renato Torres disse...

P.

bem sei que levas... mas é preciso "não dormir", se bem me entendes... somos presas fáceis das trucagens da vigília e da razão acordada. e creia-me: nunca há um real acordo entre vigília e sonho, a não ser que compreendas que vida é sonho.

te beijo,

r

Anônimo disse...

Nooossa! Tanta sensibilidade num homem só! Não sabia que um poeta paraense pudesse escrever coisas tão bonitas. Até chorei.

Beijinhos poéticos.

Ass.: Érica Medeiros.

Renato Torres disse...

Érica,

fico feliz que meu texto tenha te emocionado a este ponto...! mas, porque te surpreendes que um poeta paraense possa escrever bem, depois de termos Max Martins, Antônio Tavernard, Age de Carvalho, Mário Faustino, Paulo Vieira, Juraci Siqueira, Dand M, e tantos mais?

recomendo que descubras mais e mais estes poetas/escritores, e mais emoções aflorarão, sem dúvida...

beijos,

r

Quem sou eu

Minha foto
Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), inicia a produção do CD Vida é Sonho, quando inaugura o Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.