quinta-feira, dezembro 11, 2008

Canto Quieto

ergo um canto que não fala
rarefeito, se esgueira à maneira de ser
sussurra a prosa calada
cavalgada flecheira na ladeira a descer

sem parecer, se depara com o que não se vê
evidente como agora há vento lá fora a dizer
nada que já não se saiba no silêncio de crer
cresce sem ter onde caiba, cobrindo a muralha de fé

rego o afeto, enfeito a loa
canto a toada quieta, a secreta manhã
emaranhado acorde, asa sobrevoando aberta
na deserta canção

sem perecer, desampara entre o sim e o não
obscura como ainda há lida entre o céu e o chão
tudo quanto não se saiba cabe num estreito vão
vara o tempo e não se acaba a curva invisível do som.


*letra escrita para melodia de Leandro Dias

17 comentários:

Vermmellha disse...

Não, não tenho como conhecer a melodia para a qual foi escrita esta "letra", mas, conforme foi-se desenrolando a leitura, os dedos foram tamborilando sobe o teclado (o que, inclusive, me obrigou a escrever) e algo começou a ser cantarolado em silêncio.
Gostei da musicalidade e da métrica (lá vou falar de forma de novo...), e tive vontade de conhecer a obra completa.
Ah... não costumo comentar nada muito a fundo, até porque muitos o fazem por aqui. Prefiro mesmo ater-me ao que poucos notam (ou se importam).
Abraço!

P.S.: Acho que talvez agora, depois de mudar o nome com que me vês, já saibas quem sou.

José Maria Alves disse...

A página branca transmite paz e traz poesia da melhor qualidade.
Ar rarefeito.
Abraço camarada

Márcia Gabrielle Dantas disse...

O que não perece nunca, acaba virando canção.
E essa página branca sempre faz estremecer o adormecido. Canto quieto para o infinito.

Te amo, Rênosso.

aponte disse...

De ladeira em ladeira
Também cresço,
E mesmo comentando meu apreço
Meu endereço é a ribeira

Mas não desço só, e não paro
Porque exploro por onde caiba
Deposito meu tijolo ma muralha
Onde piso é recomeço

Me lanço
Nesse canto de silêncio
Procurando o além do vão
Esperança de um dia ser apenas som.


Marcello Aponte

Ricardo Mainieri disse...

Renato:

É na sonoridade do silêncio que se formam as grandes poesias e canções.
Uma letra que me faz ouvir acordes dissonantes, conduzidos pelo ritmo do poeta/cantor.Seriam sétimas e nonas ou quem sabe quintas diminutas preparando a volta à tônica.
Também, já fiz letras de música e já toquei meu Di Giorgio...
Hoje, o violão jazz num canto emudecido do quarto...
Abaixo uma letra de música minha, numa batida bossa nova, na tonalidade de Dó maior:

Novos sinais

Cristalina manhã
os acordes da luz
derramando em você
breves sonhos
despertar em paz


É difícil sentir
calmas ondas do mar
tão intenso em mim
roupa nova recobrindo
minha dor.


Adormece a razão
sensação me conduz
à procura de um rosto perdido
na manhã que nasceu.


Ricardo Mainieri

Abração e Feliz 2009

Tere Tavares disse...

Renato,
Não é invisível, porém, a nota que brota do sentimento, o valor que se dá há de ser, é música, é amor a arte, a branca página domada por ti.
Querido amigo,Feliz 2009.
Beijão

oavessodaletramorta disse...

Puxa...só agora percebi a letra de maneira absoluta...texto lindo...em música pontual...
Parabéns pela música!!

Renato Torres disse...

oi vermmelha,

a saber quem és, me apraz que contribuas com nova visão sobre o que vou escrevendo. a obra completa é, sem dúvida, de beleza ainda maior, visto que é uma canção, e que a letra nasceu da melodia... mas "canto quieto" foi escrita pra sobreviver também como poesia, daí, talvez, a força, reconhecida por ti, da sua forma.

abraços!

r

Renato Torres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renato Torres disse...

zé,

que bom que sentes essa paz!... essa toada, deveras, te traria mais paz ainda se a ouvisses... parece um bocado contigo, imagino. bom sempre receber tua visita!

abraços,

r

Renato Torres disse...

marcota,

minha querida, é exato o que dizes, como é exata a nossa amizade e ligação perenes na música e na arte. te amo também.

beijo,

r

Renato Torres disse...

marcelo,

que beleza de poema, de bate pronto! fico feliz em supor que "canto quieto" tenha inspirado este teu escrito, pelo menos em correlação.

abraços!

r

Renato Torres disse...

maini!

sim, tudo vem do silêncio, e, creio eu, voltará a ele também. sempre penso que escrevo e canto na direção do silêncio, o que é bem mais do que a idéia de morte. mas que bacana saber que também já compuseste canções! esse di giorgio precisa ser revisitado, não?

abraços,

r

Renato Torres disse...

tere,

sim, esse valor estará sempre visível em nós, amém... perdoe-me por ter demorado tanto a responder teu comentário e tuas felicitações de ano novo!... ando domando raramente essa página branca...

beijos!

r

Renato Torres disse...

felipe

nunca será tarde para percebermos (felizmente!) a beleza daquilo que se quer perene, incólume. aqui, a beleza da melodia criada pelo leandro é pai e mãe do poema, ardendo feito brasa na distância intangível.

abração!

r

"Olhos de Folha Minha" disse...

o som nunca se acaba em sua poesia

abs

cintia thome

Renato Torres disse...

cintia,

e que bom que o som continua além das palavras, né? só assim pra continuares visitando o que escrevi e publiquei a tanto tempo atrás... tenho que atualizar esta página!

obrigado por ter vindo, querida!

beijo,

r

Quem sou eu

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Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), inicia a produção do CD Vida é Sonho, quando inaugura o Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.