quinta-feira, julho 10, 2014

O medo (ao espelho)


  tenho medo de mim mesmo
de mostrar-se o meu segredo
  de meu dedo apontando-me
o degredo que não cedo

  desse deus medido a ego
de me doer desapego

  se me pego andando a esmo
tenho medo do que cismo
  desse abismo do que medro
e do cedro em que espasmo

  tenho medo dos miasmas
dos fantasmas que não vejo
  não invejo a rouca asma
que se esconde em meu desejo

  tenho medo de mim, próprio
ao colóquio desse espelho
  tenho em mim o temor velho
o entulho ardendo, o ópio
  da paúra que arruina

(tenho medo, eis mi'a sina)

a assassina covardia 
  preme os olhos, assustada:
nada vê além da queda
  em si mesma, assoberbada

tenho do medo a ferida
  desd'a origem abobadada
domínio algum da vida –  
  essa égua desabrida
essa mula decapitada

  tenho medo de ser nada
este um que me suponho
  meu pensamento medonho
é o desenredo tamanho
  cujo lanho vaza o sonho
envenena o próprio punho
  rebenta o grito de estanho
corroído desde o sumo

(tenho medo desse estranho).

quinta-feira, abril 03, 2014

Canção imaginada


a palavra é só
no silêncio, escolhe a cor

a palavra dita
não evita o corte, a flor

permanece o som 
do que mira no deserto
chega ao coração 
a canção que imaginei 
sem saber

bem mais perto
cobre a solidão
do mais secreto mundo que houver

ouve, atento, por dentro 
o que não diz
palavra e vento
feito lava a arder


a palavra é sal
a saudade é seu pudor

a palavra grita
interdita a morte, a dor

amanhece o pó do que vira
louca em sonho
sangra o coração 
a canção que imaginei 
sem saber.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

três meninos


não deixo de ver a mim mesmo
no rosto tenso do garoto
que me assalta.

    não lhe falta a tez robusta
que a juventude lhe empresta
    mas de mim toma, rude, à custa
de esbravejar, de brandir a arma de fogo
    sob o jugo de um malogro
em que eu caio,
e minha amiga, desesperada.

sai, exasperada, à luz fria do meio-dia
    aquela cenografia cínica do assalto
à mão armada - e eram três, repetidos
    sob o aplique lerdo da tarja preta
três meninos sujos pelo esperma do capeta
    ou que apertam a arma que a governança
comenta, entre os comes e bebes da província.

    não deixo de ver a mim, à minúcia
de ser eu mesmo vítima e a iminência criminosa
    já que a rosa do povo jaz, soturna
à viva-voz, em plena esquina diurna
    depauperada aos chorumes da vala mal cheirosa.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Passarinho


                                                     "i forgot to get high..." (Damon & Naomi)

bem-te-vi pequenininho
entre as frestas do caminho
no ninho do japiim a dizer
assim como quem abre os olhos:
sou um espírito antigo de mata e riacho
e colho das frutas sua porção de sonho

vi que era um bicho de asas
e que sua casa era
um chão sem primavera, pleno
da luz de Equador, e o vento
serenava a tarde, com
cochichos sobre as horas

passarinho de agora, de gaiola
à roda dos passos, avoando aos
tropeços, cantando pelos avessos
da viola em noite escura

vês que a vida só melhora
no teu voo de aventura
enquanto dura e doura a flora
e porque cora a formosura
e tanta feiura se adora.

quarta-feira, outubro 16, 2013

O olho do poeta

                                                          para Carol Magno
o olho do poeta
é porta entreaberta
às vezes incerta
seta enviesada, açoite

o olho do poeta
é a noite preta
inquieta, passada em claro
exagero raro, em riste

o olho triste espanta
gargalha mais que
a garganta do chiste

o olho empresta
a crosta lunar, a fresta
d'um lupanar em festa

o olho, mais que enxergar,
insiste em mostrar
o que nos resta.

sexta-feira, setembro 13, 2013

A luta


há os que escolhem fugir.

quanto a mim,
tenho o peito à mostra
em pleno calor da luta.

perguntas, sem dizer: és capaz de
sustentar à mão o caule delgado do tempo?
eu, que nada sei de respostas ao invisível
estremeço apenas, franco, e tanto quero.

o calor do verão exalta os autos.

relincham e guincham 
as ruelas exterminadas e 
inóspitas ao meio-dia.

há os que se refugiam à sombra.

quanto a mim,
revolvo a terra em pleno sol,
com meus cascos de touro.

o ouro dos tolos é a cega esperança.

a que tenho 
enxerga no escuro, e
chega perto do precipício.

prefiro o ofício do voo, e o ninho
lunar dos teus cabelos de ouro
ao choro sem peixes do decoro, à
pedra sem sonhos da incerteza. 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Poemas paulistanos


desse olhar que me escapa
na descida do metrô
desse, onde não estou
na frondosa fonte decepa
o horizonte, o mirante, o pátio
do átrio mudo, esbraveja
de um copo de cerveja, inveja
a peleja sem entrega da fronte
diante do ato frio na multidão

dessa solidão resignada
donde a cortesia sofre o corte
da enxada entrincheirada
de certo desejo ou flerte
com a morte, a sorte, o ensejo
desse olhar em que não vejo
a mim ou ao outro, ensimesmado
arrumo os dentes enfileirados
sobre os lábios entreabertos
sem saber ao certo onde termina
o que imagina e o que desperto

desse olhar, o deserto sobreavisa
e pisa o peito no que resvala
e cala, suspeitando que comunica
o mínimo esgar do que não distraia
do que não caia na vala comum
dos desafetos da grande cidade
onde arde arde arde a sutura
entre a noite escura e o dia
no mais fundo que não sossega
na mais rasa filosofia.


quarta-feira, maio 01, 2013

Ao segundo dia

o tempo é o melhor caminho
este que trilhas como que
                                                sozinho
sem parecer que morres outro
que nasces muitos
                                   a cada minuto.

deixa que o tempo te cuide:
permaneças um viajante,
guardando e dourando
                                          memórias
como quem elege recortes.

abrevia teus cortes e sangrias
sob a malva e o cipreste
dos dias vindouros,
repensa o ouro do que sentes
afrouxa a faca entre os dentes
adornando o rebordo
                                        dos medos
com as flores de maio
com o mínimo raio que se enfresta
ao segundo dia da festa
ao se recordar entre os teus
que nasceste deus e poeta
e que apertas entre os dedos
                                         a destra clave 
de tudo que
               se abre, infesta, aflora.

o tempo, sabes, é tudo o que
há de melhor agora
sem negar suas dores
e que há de provar
                                    sua inexistência

(sua bela ciência de deus imaginado).

quarta-feira, abril 03, 2013

Canto pra Zé Celso

eu me empenho com afinco
                        e nunca minto
com o que sinto, penso e faço
                               aguento o tranco
tropeço mas não manco
em qualquer recinto
                                      e reexisto
cada vez mais firme e franco



eu sou risível, roto, e nunca
                                  me ressinto
de ser palhaço nesse mundo
                       enquanto canto
e não me espanto de ser
                                          rei num labirinto
se o que me espera é o mistério
                           aos quatro ventos



eu me oriento pelo caos
                                  por isso brinco
com ferro e zinco ergo a estrutura
                                   do que imanto
eu só invento no que vivo, e
                                                    nunca mímico
na arte cínico, cênico, sátiro,
                                                        zéfiro, santo.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Sem Medida


abandonei o relógio de pulso
agora uso, pra marcar o tempo
cada momento da respiração
cada passo sem pressa

os impulsos do coração
nada mais que me impeça
de sorrir ao compasso lento
do pensamento livre da razão

nada de algemas, nem penas
que não sirvam ao voo leve
corolário dos poemas que trago
atados a braços firmes

nem mesmo às pernas tontas
remonto à mesma pisada
tenho os pés nus pela estrada
em vertigem de surpresa

agora só ponho a mesa
ao que realmente interessa:
minha fome mais espessa
a presa mais controversa

a que custa a chegar, mas pesa
na balança sem medida
a carne prenhe de vida
a conversa de lamparina acesa.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Leva teus sonhos a sério

Leva teus sonhos a sério -
não são tão somente mistério
são antes o instante largo
o charco da intempérie íntima,
insuspeitada, o sótão onde dormem
teus choros engolidos da infância,
e toda tua ânsia adulta
resulta desse acordo tácito
entre a vigília absoluta, e a
tua incapacidade em viver-lhe
a frieza cartesiana

Teus sonhos são a sanha
irreprimível da natureza, que
repete a destreza do que mentes
co'a semente do fulgor imaginado
lembra do que foi sonhado
ainda que inventes a narrativa
da furtiva janela entreaberta
onde a bela mulher que espera
o inesperado jamais mostra o rosto
lá tudo está posto, tudo dito
da afasia do infinito à nitidez
do frágil presente

A inquieta luminescência, o roteiro
fragmentado, o realismo fantástico,
a sombra aterrorizante, o 
prazer irrepetível, a anedota,
o enigma, o anagrama, a parábola,
a runa e o arcano, todos os teus
enganos, solucionados a um só talho,
de um só gole, golpeados a frio,
no vazio de existires, de resistires,
de, por fim, insistires na ignorância
do que acode, ostensivo feito 
enormes ondas salgadas na areia,
a cada noite em que vagueias,
e dormes.

quinta-feira, novembro 01, 2012

O Perdão

esforça-te em tua chaga
com a draga macia da solidão
pois os que te ofenderam
jamais saberão que te afagas
antes com a faca que com o perdão

- este hiato entre o silêncio

e a mágoa inevitada

esta enxada com que cavas
a terra encharcada
de tua própria escravidão

sangue e suor, lágrima e cachaça

os sacramentos da missa
de extrema unção do teu ego
tornado baia e pelego
sobre o cavalo de fogo e remorso
teus metatarsos cravados no dorso,
na crina da égua noturna
tua febre diuturna
sem água ou descanso

o descaso rançoso com que avanças

cego, e sem vingança aparente
rangendo entre os dentes
a ferrugem amorosa
a pobre rosa do perdão
que abortas, ainda em botão.

terça-feira, outubro 30, 2012

Pátria de Sermos

Na noite do dia 28 de dezembro de 2006, conversava com minha amiga portuguesa Luísa Mota pelo msn (nessa época, esse comunicador ainda era bastante popular e útil, pelo menos pra mim). Nossas conversas, sempre travadas com fulgor e intensidade das verdadeiras amizades, chegavam, por vezes, a pontos brilhantes, de profunda emoção, como quando certa vez chorei ao ver, pela web cam, sua pequena filha a dançar e rodopiar na sala de seu apartamento de então. Luísa (hoje Ribas, porque casou-se com o também poeta e artista visual carioca Renato Ribas), sempre foi uma "amiga virtual" - nunca nos vimos de perto - mas sua amizade sincera, a grandeza evidente de seu caráter, e seu imenso e sensível talento como poeta, nos fizeram amigos reais, bem mais que muita gente que vejo de perto cá em minha cidade, e a sei leitora atenta de meus escritos.
Gosto de escrever a quatro mãos, e já publiquei algumas parcerias na Página Branca; estranhamente, ainda não havia publicado esta, que nasceu nessa noite como substrato de uma de nossas conversas mais profícuas. O poema, construído verso a verso como num diálogo, tornou-se desde o ano passado o encerramento do espetáculo De Tudo: música+poesia, que realizo com o poeta Renato Gusmão, e o considero emblemático de tudo o que representa ser poeta: um diálogo com algo que não se vê, mas se sente profundamente, como os amigos invisíveis das crianças. Serei sempre eternamente agradecido, Senhora Lua...


 
vive mais poesia no olhar
do que nos objetos - afetos de brisa
que fitam palavras de ternura
balançam nas juras que o vento paralisa

versos celebrados em candura
que nenhuma escura voz poderá obliterar
nossa escritura vincular ilimitada

a espada de lírios que empunhas absorta
imensidade cumprida em segredo sideral
assusta, deveras, os que compreendem mal

mas exalta o universo dos que amam

há mais poesia porque dela floresces
como as medusas das praias nuas
como absintos das ruas e vielas multicores

rédeas e rodopios da vida -
a que consentes, a que conquistas
a que vences sem armas, com beijos

na planície, sob a aurora do desejo
marcha de sonho e um reino florido
para teu povo - a gema límpida do futuro

pátria de sermos

sexta-feira, outubro 12, 2012

Oito Trovas Vividas


dei um jeito de ir crescendo
pra surgir noutro lugar
minha vida fui vivendo
indo de aqui até acolá

ando assim como se quando
fosse onde eu queira estar
adormeço e vou sonhando
sem saber como acordar

sem saber se o que escondo
é o mais fundo do que sou
a pergunta que respondo
ao mostrar-me sem pudor

se puder, me faço inverso
do que peço ou do que quis
sempre intenso no que, imerso,
penso ser minha raiz

num país deserto, a neve
de um inverno sem palavra
e meu corpo inquieto e breve
se descreve no que escava

e se encobre no que embebe
de absinto ou de cachaça
o absurdo labirinto
do que sinto, e nunca passa

e não grassa a desventuras
nas paúras descontentes
que me queiram nas funduras
escurezas penitentes

vou tentando ser adiante
antes que a morte surpreenda
e me prenda em seca fonte
donde eu nada mais entenda.

terça-feira, agosto 28, 2012

Nu e cru

sou nu e cru como sempre
unha e carne com o perigo
ando bem leal comigo
da cabeça ao baixo ventre

os meus pés eu deixo à solta
para irem sem destino
sou o homem e o menino
pelo mundo sem escolta

mas escuto o que me falam
as canções e os amigos
choro, bebo, berro e brigo
por tudo aquilo que calam
 
e por tudo o que sangra
estanco à minha maneira
com metal, fogo e madeira
da viola à voz que singra

atravessa a vida a nado
num estado de urgência
repetindo em mim a ciência
do mistério desvendado

sou tal e qual desde o berço
desde antes desta vida
tenho a alma repartida
entre o que peço e mereço

nu e cru, no descompasso
nunca esqueço minha sorte
lanço dados com a morte
fundo corte do que faço.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Mesmo Quando


sempre me surpreendi que a palavra "mesmo", 
ainda que tenha uma função assertiva, de confirmação
traga em sua narrativa uma parte a esmo, sem direção,
a suspeição enferma de sua própria condução,
certa predileção por abismos ermos,
por erros sem perdão, e por perdermo-nos sem conta.

a tonta compreensão, e sua feição de esboço
o torso hirsuto e a timidez de suas mãos úmidas
a sólida incerteza a nos abençoar escolhas
ainda que as folhas do livro fatal durmam entreabertas
jamais livrar-se do espanto das descobertas, 
e dos enfados pressupostos

valham-me ainda os rostos das palavras
revisitados sob o escopo da vertigem
sua imagem repartida ao infinito 
dos espelhos postos frente a frente
a medida transluzente de suas inflexões, 
sempre sabendo a origem e voragem,
ora retornando ao chão semântico, 
ora alçando cânticos de coração.

será assim que o advérbio "quando"
mesmo tendo intacta a interrogação imanente,
trará, urgente, uma porção móvel, as pernas inquietas 
de significados, a multicolorida paleta dos poetas,
a noção aberta entre tempo e movimento, história e ação.

a vaga invenção, e sua lição de esforço
a taça súbita, enchida ao transbordo das intenções
a memória das ilusões propositais
seus estratagemas súditos de alguma atenção ingênua –
a tênue alma do fonema, a palavra que vibra em voz
quando a foz abre-se oceânica
mesmo que o canto seja lacônico.

Quem sou eu

Minha foto
Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012), Antologia Eco Poético (ICEN, 2014), O Amor no Terceiro Milênio (Anome Livros, 2015), Metacantos (Literacidade, 2016) e antologia Jaçanã: poética sobre as águas (Pará.grafo, 2019). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), e em 2019 lança o álbum solo Vida é Sonho, autoproduzido no Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.