quarta-feira, janeiro 04, 2017

2016/2017


por vocês, que por mim passaram
anos de pedra e de vento
a conta dos acontecimentos ressoa
em cada folha que voa
sobre os olhos da criança que fui


porque esperei por cada um
com luz acesa e esperança
e o alimento dos sonhos
na chuva leve que cai
pelos ombros de janeiro
até o desabrochar dos dias 

inteiros

cordilheiras de horas erguidas
sobre as feridas curadas
na despedida e na chegada
em que te acolho
revolvido

como um feixe de terra
cerzido à mão, semeado
me entrego cultivado
aos cuidados do devir


a vocês, ponteiros de Cronos
grãos de areia escorreitos
ofereço o leito semovente
o diamante sem tempo
dos viajantes: prosseguir
a estrada é o rumo
viver é sempre chegar
e partir.

quarta-feira, julho 27, 2016

Bruxismo

                                                                            para Lou Reed

trincam-me os dentes à noite
rachando sob o peso dos sonhos

o seu mármore inquieto range

sob o firmamento calado

entre o ronco e o enfado

o estômago aflige o esôfago
num afago ácido de onda

demanda de si a barganha

da rinha cotidiana irresoluta

inflama a luta desigual

entre o possível e o improvável

rompe, do siso ao juízo,

o seu improvisado diamante

dentifrícios e antissépticos 

ardem sua fogueira deliberada.

trancam-me os dentes à chave
pra fora do corpo dormente:
lá dentro esbatem-se as palavras
como minúsculas serpentes sob a língua
(
na água escura da noite gemem
como as tábuas de um velho barco)

sob o arco abobadado, cravado 
de aftas e abcessos, assoma o recomeço
um acesso cauterizado pela dor

a arca corroída se abre em nervos

através do canal devastado

malgrado o dever involuntário

da moenda e guilhotina diárias
a arcada dentária enverga
sua moldura identitária no riso
ou na fúria que nela se imprime - 
ou reprime - num bruxismo insone.

segunda-feira, maio 02, 2016

Dentes e sal

"resolveu celebrar universários"
relia naquele poema enquanto ajeitava-se 
à roda de uma fogueira - a velha estrada 
que atravessava, e onde reunia-se continuamente 
com os desconhecidos de um sonho.

a mais nova entre eles surpreendeu-se: "44?
mas como, viajante? onde descobres a fonte infante?"

respondeu com um meio sorriso, porque
naquela tarde específica o calor era terrível
e o cansaço amealhava pequenas dores
como um ramalhete intermitente.


"não tenho nenhum segredo, a não ser dentes e sal"
ela intrigou-se ainda mais: "dentes e sal?"
decidiu recostar-se na pedra do caminho,
a cabeça encaixada, os olhos estrelados
 
"veja: mesmo nessa tarde solar
é possível ver estrelas... elas vagam na retina
como protozoários inquietos"
.


a pequena nem considerou a digressão,
pertinaz em seu inquérito: "queres dizer
dos dentes que usas para comer, do sal
da terra que te sustenta o corpo?"

dessa vez a olhou cuidadosamente nos olhos
(como convém olhar toda criatura que os têm)
e lentamente abriu um sorriso completo,
que evoluiu até uma levíssima risada.
parece ter funcionado, porque ao contágio
os olhos dela também riram, e a moça finalmente
mostrou os dentes que tinha - e eram belos.


"quanto ao sal", disse a ela "é bom que desperte
sempre que o coração sangrar, pela luz do olhar.
ele o conservará, não o deixará apodrecer.
não há nada pior que um coração apodrecido"


nesse momento, a menina se deu conta:
estava longe, muito longe de casa,
longe daqueles que conhecia e amava,
longe do próprio sentido da longa viagem,
longe da vigília, longe de si mesma,
longe do perdão, e apesar de ter tentado,
não conseguiu manter-se longe da própria dor.
sorriu desconcertada ao universariante, os
olhos afundados na ressaca do mar


e chorou.

terça-feira, julho 14, 2015

Aqueles homens


aqueles homens vêm anestesiados
socando a ponta de uma faca lerda
fazendo mímicas pra gente cega
gente que chega, e não sabe por que

ninguém dorme com a cabeça no espelho
ninguém velho que morrer antes do tempo
ninguém tenta o suicídio quando criança
e nem dança ao meio-dia
à plena luz do meio-dia.

aqueles olhos têm dois olhos que são meus
que se debruçam na janela do arranha-céu
eu sei de todas as dores
sei pintá-las de mil cores
e gosto de olhar o mar
de embriagar

aqueles homens dormem com fome
têm sede de estar com outros homens
acordam com preguiça de respirar.

(1993)

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Universário


para Cláudia Torres
cansado de entreter-se
em calendários
resolveu celebrar
universários

para tanto
reuniu entretantos
ao erário tonto da rotina
iluminando a lâmina
diamantina
d’um dia qualquer
com o fogo de acolher
seus nascituros

os astros obscuros
pelo espaço enfim notaram
que às curvas de seu mapa
enviesaram as casas,
e a cabeça do dragão
a meio do céu
cuspiu labaredas

o corcel das veredas
apeou seu galope
e a golpes de mote
escreveu sua sorte
nas frinchas, nas brechas,
onde a morte empresta cor
aos que vivem sem temor.

quarta-feira, novembro 05, 2014

O Ódio

à memória urgente do massacre guamaense

dizem que o ódio é um bicho morto-vivo
primitivo, vem das lendas borgianas
recolhidas entre uma e outra pálpebra
depauperada das canalhas insones


dizem que o ódio é sem nome, mas sempre
assume vestes e corpos de homem,
enverga mosquete, clarim, alforje, seta e besta
e se infesta silenciosamente pelos
roncos da sesta do bairro suburbano


dizem que o ódio é uma invenção dos humanos
que por sua vez, dizem nada ter a ver com ele
sua pele viscosa tem, por vezes, a libido e a bile
misturadas como numa saliva babada incontinente


dizem que o ódio é demente, e nem sente
sua própria existência, é como uma carência
que mente, enquanto tenta provar inocência
põe a forca em pescoços infantes, e deseja
o quanto antes, que seja coroada sua ânsia
por vingança, por preguiça, por ciência.


quinta-feira, julho 10, 2014

O medo (ao espelho)


  tenho medo de mim mesmo
de mostrar-se o meu segredo
  de meu dedo apontando-me
o degredo que não cedo

  desse deus medido a ego
de me doer desapego

  se me pego andando a esmo
tenho medo do que cismo
  desse abismo do que medro
e do cedro em que espasmo

  tenho medo dos miasmas
dos fantasmas que não vejo
  não invejo a rouca asma
que se esconde em meu desejo

  tenho medo de mim, próprio
ao colóquio desse espelho
  tenho em mim o temor velho
o entulho ardendo, o ópio
  da paúra que arruina

(tenho medo, eis mi'a sina)

a assassina covardia 
  preme os olhos, assustada:
nada vê além da queda
  em si mesma, assoberbada

tenho do medo a ferida
  desd'a origem abobadada
domínio algum da vida –  
  essa égua desabrida
essa mula decapitada

  tenho medo de ser nada
este um que me suponho
  meu pensamento medonho
é o desenredo tamanho
  cujo lanho vaza o sonho
envenena o próprio punho
  rebenta o grito de estanho
corroído desde o sumo

(tenho medo desse estranho).

quinta-feira, abril 03, 2014

Canção imaginada


a palavra é só
no silêncio, escolhe a cor

a palavra dita
não evita o corte, a flor

permanece o som 
do que mira no deserto
chega ao coração 
a canção que imaginei 
sem saber

bem mais perto
cobre a solidão
do mais secreto mundo que houver

ouve, atento, por dentro 
o que não diz
palavra e vento
feito lava a arder


a palavra é sal
a saudade é seu pudor

a palavra grita
interdita a morte, a dor

amanhece o pó do que vira
louca em sonho
sangra o coração 
a canção que imaginei 
sem saber.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

três meninos


não deixo de ver a mim mesmo
no rosto tenso do garoto
que me assalta.

    não lhe falta a tez robusta
que a juventude lhe empresta
    mas de mim toma, rude, à custa
de esbravejar, de brandir a arma de fogo
    sob o jugo de um malogro
em que eu caio,
e minha amiga, desesperada.

sai, exasperada, à luz fria do meio-dia
    aquela cenografia cínica do assalto
à mão armada - e eram três, repetidos
    sob o aplique lerdo da tarja preta
três meninos sujos pelo esperma do capeta
    ou que apertam a arma que a governança
comenta, entre os comes e bebes da província.

    não deixo de ver a mim, à minúcia
de ser eu mesmo vítima e a iminência criminosa
    já que a rosa do povo jaz, soturna
à viva-voz, em plena esquina diurna
    depauperada aos chorumes da vala mal cheirosa.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Passarinho


                                                     "i forgot to get high..." (Damon & Naomi)

bem-te-vi pequenininho
entre as frestas do caminho
no ninho do japiim a dizer
assim como quem abre os olhos:
sou um espírito antigo de mata e riacho
e colho das frutas sua porção de sonho

vi que era um bicho de asas
e que sua casa era
um chão sem primavera, pleno
da luz de Equador, e o vento
serenava a tarde, com
cochichos sobre as horas

passarinho de agora, de gaiola
à roda dos passos, avoando aos
tropeços, cantando pelos avessos
da viola em noite escura

vês que a vida só melhora
no teu voo de aventura
enquanto dura e doura a flora
e porque cora a formosura
e tanta feiura se adora.

quarta-feira, outubro 16, 2013

O olho do poeta

                                                          para Carol Magno
o olho do poeta
é porta entreaberta
às vezes incerta
seta enviesada, açoite

o olho do poeta
é a noite preta
inquieta, passada em claro
exagero raro, em riste

o olho triste espanta
gargalha mais que
a garganta do chiste

o olho empresta
a crosta lunar, a fresta
d'um lupanar em festa

o olho, mais que enxergar,
insiste em mostrar
o que nos resta.

sexta-feira, setembro 13, 2013

A luta


há os que escolhem fugir.

quanto a mim,
tenho o peito à mostra
em pleno calor da luta.

perguntas, sem dizer: és capaz de
sustentar à mão o caule delgado do tempo?
eu, que nada sei de respostas ao invisível
estremeço apenas, franco, e tanto quero.

o calor do verão exalta os autos.

relincham e guincham 
as ruelas exterminadas e 
inóspitas ao meio-dia.

há os que se refugiam à sombra.

quanto a mim,
revolvo a terra em pleno sol,
com meus cascos de touro.

o ouro dos tolos é a cega esperança.

a que tenho 
enxerga no escuro, e
chega perto do precipício.

prefiro o ofício do voo, e o ninho
lunar dos teus cabelos de ouro
ao choro sem peixes do decoro, à
pedra sem sonhos da incerteza. 

quinta-feira, agosto 08, 2013

Poemas paulistanos


desse olhar que me escapa
na descida do metrô
desse, onde não estou
na frondosa fonte decepa
o horizonte, o mirante, o pátio
do átrio mudo, esbraveja
de um copo de cerveja, inveja
a peleja sem entrega da fronte
diante do ato frio na multidão

dessa solidão resignada
donde a cortesia sofre o corte
da enxada entrincheirada
de certo desejo ou flerte
com a morte, a sorte, o ensejo
desse olhar em que não vejo
a mim ou ao outro, ensimesmado
arrumo os dentes enfileirados
sobre os lábios entreabertos
sem saber ao certo onde termina
o que imagina e o que desperto

desse olhar, o deserto sobreavisa
e pisa o peito no que resvala
e cala, suspeitando que comunica
o mínimo esgar do que não distraia
do que não caia na vala comum
dos desafetos da grande cidade
onde arde arde arde a sutura
entre a noite escura e o dia
no mais fundo que não sossega
na mais rasa filosofia.


quarta-feira, maio 01, 2013

Ao segundo dia

o tempo é o melhor caminho
este que trilhas como que
                                                sozinho
sem parecer que morres outro
que nasces muitos
                                   a cada minuto.

deixa que o tempo te cuide:
permaneças um viajante,
guardando e dourando
                                          memórias
como quem elege recortes.

abrevia teus cortes e sangrias
sob a malva e o cipreste
dos dias vindouros,
repensa o ouro do que sentes
afrouxa a faca entre os dentes
adornando o rebordo
                                        dos medos
com as flores de maio
com o mínimo raio que se enfresta
ao segundo dia da festa
ao se recordar entre os teus
que nasceste deus e poeta
e que apertas entre os dedos
                                         a destra clave 
de tudo que
               se abre, infesta, aflora.

o tempo, sabes, é tudo o que
há de melhor agora
sem negar suas dores
e que há de provar
                                    sua inexistência

(sua bela ciência de deus imaginado).

quarta-feira, abril 03, 2013

Canto pra Zé Celso

eu me empenho com afinco
                        e nunca minto
com o que sinto, penso e faço
                               aguento o tranco
tropeço mas não manco
em qualquer recinto
                                      e reexisto
cada vez mais firme e franco



eu sou risível, roto, e nunca
                                  me ressinto
de ser palhaço nesse mundo
                       enquanto canto
e não me espanto de ser
                                          rei num labirinto
se o que me espera é o mistério
                           aos quatro ventos



eu me oriento pelo caos
                                  por isso brinco
com ferro e zinco ergo a estrutura
                                   do que imanto
eu só invento no que vivo, e
                                                    nunca mímico
na arte cínico, cênico, sátiro,
                                                        zéfiro, santo.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Sem Medida


abandonei o relógio de pulso
agora uso, pra marcar o tempo
cada momento da respiração
cada passo sem pressa

os impulsos do coração
nada mais que me impeça
de sorrir ao compasso lento
do pensamento livre da razão

nada de algemas, nem penas
que não sirvam ao voo leve
corolário dos poemas que trago
atados a braços firmes

nem mesmo às pernas tontas
remonto à mesma pisada
tenho os pés nus pela estrada
em vertigem de surpresa

agora só ponho a mesa
ao que realmente interessa:
minha fome mais espessa
a presa mais controversa

a que custa a chegar, mas pesa
na balança sem medida
a carne prenhe de vida
a conversa de lamparina acesa.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Leva teus sonhos a sério

Leva teus sonhos a sério -
não são tão somente mistério
são antes o instante largo
o charco da intempérie íntima,
insuspeitada, o sótão onde dormem
teus choros engolidos da infância,
e toda tua ânsia adulta
resulta desse acordo tácito
entre a vigília absoluta, e a
tua incapacidade em viver-lhe
a frieza cartesiana

Teus sonhos são a sanha
irreprimível da natureza, que
repete a destreza do que mentes
co'a semente do fulgor imaginado
lembra do que foi sonhado
ainda que inventes a narrativa
da furtiva janela entreaberta
onde a bela mulher que espera
o inesperado jamais mostra o rosto
lá tudo está posto, tudo dito
da afasia do infinito à nitidez
do frágil presente

A inquieta luminescência, o roteiro
fragmentado, o realismo fantástico,
a sombra aterrorizante, o 
prazer irrepetível, a anedota,
o enigma, o anagrama, a parábola,
a runa e o arcano, todos os teus
enganos, solucionados a um só talho,
de um só gole, golpeados a frio,
no vazio de existires, de resistires,
de, por fim, insistires na ignorância
do que acode, ostensivo feito 
enormes ondas salgadas na areia,
a cada noite em que vagueias,
e dormes.

Quem sou eu

Minha foto
Belém, Pará, Brazil
Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012), Antologia Eco Poético (ICEN, 2014), O Amor no Terceiro Milênio (Anome Livros, 2015), Metacantos (Literacidade, 2016) e antologia Jaçanã: poética sobre as águas (Pará.grafo, 2019). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), e em 2019 lança o álbum solo Vida é Sonho, autoproduzido no Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.