eu vivo à beira do precipício
e tenho o vício sereno da queda.
a seda que envolve o gume do poema
não teme o corte.
eu vivo no ritmo da morte
microscópica de minhas células,
no rumor de suas almas esbatendo-se
na brisa que expiro - libélulas minúsculas,
éter flambado em hálito.
eu giro em hélices que reúno
aos ramalhetes, inscrevo verbetes inéditos
às vértebras do indício.
hinário d´outro culto, escuto árias
angélicas em meio à minha febre.
eu sou dourado a cobre, tenho
a impáfia charlatã das bijouterias.
o caldo fervente que verte o poema
não queima a sorte.
eu tardo no trânsito do mote
que repete a destreza das infantarias,
a flecha túmida feita a desejo
e siderurgia, irrompendo perdulária
de minhas vestimentas.
eu trago comigo as ferramentas inúteis,
hábeis às tarefas que não compreendo:
o incêndio rouco, a árvore cadente,
a sílaba serralheira, o novelo do quando,
e talho a golpes de tinta negra
a regra que resta queimando,
fôlego de serpente calada.
eu mordo a carne da fruta
e flagro a disputa alada
entre alegrias e tormentos.
eu vivo à custa do que invento
e tenho um vento doido
a soprar-me a cara.
inerência da linguagem mormente na página branca: a potência da semente, a semântica do mote cotidiano, sem planos. poesia para o enfrentamento do que inexiste, mas urge. grafias caboclas e indígenas por ascendência, oriundas de uma terra feita de águas intensas. poemas registrados na Fundação Biblioteca Nacional - RJ
sábado, junho 03, 2006
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Quem sou eu
- Renato Torres
- Belém, Pará, Brazil
- Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador, diretor e produtor musical. Formou diversas bandas, entre elas a Clepsidra. Já trabalhou com diversos artistas paraenses em palco e estúdio. Cria trilhas sonoras para teatro e cinema. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012), Antologia Eco Poético (ICEN, 2014), O Amor no Terceiro Milênio (Anome Livros, 2015), Metacantos (Literacidade, 2016) e antologia Jaçanã: poética sobre as águas (Pará.grafo, 2019). Escreve o blog A Página Branca (http://apaginabranca.blogspot.com/). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014), e em 2019 lança o álbum solo Vida é Sonho, autoproduzido no Guamundo Home Studio, seu estúdio caseiro de gravação e produção musical, onde passa a trabalhar com uma nova leva de artistas da cidade.
14 comentários:
O vento doido foi o meu primeiro beijo.
Deixa o estranho opinar: uma incerteza no meio da madrugada. Dada. Dizer o quê, senão o elogio velho do eu queria-ser-você-e-talvez-eu-seja?
Abraço, q eu tenho q voltar lá pro poema que me escreveu.
E ainda dizem q o ontem demora a vir...
Vc é um poeta, desses q é bom de se ter, como amigo, ainda q nunca se conheça.
Segundo Abraço.
Fomos.
UM ÍMPETO DE DIZER O INDIZÍVEL, DE POETAR O NÃO POÉTICO, UM POUCO DE AUGUSTO DOS ANJOS, VC ANJO ENDEMONIADO...VENTO A SOPRAR NOSSAS VIDAS ÁRIDAS E QUENTES...BEIJOS..
Eita, que eu acho que esse vento doido também sopra na minha cara.
Beijos.
pássara,
esse beijo ácido/tácito da invenção há de molhar-nos a boca sempre.
beijo,
r
hb,
cara, me intrigastes um bocado! primeiro te tomei como meu grande amigo henry burnett, por causa das iniciais... depois que fui no teu spaces, vi que és alguém... que não conheço? bom, como v~es ainda estou intrigado! mas vale, pela beleza do teu comentário. te agradeço os olhos prontos à minha ventania.
abraço,
r
wagner,
meu maninho: sabes bem que escolhemos o caminho infernal de quem não se esquiva de furacões. apenas tento sustentar minha sina com honra... sopro-te os olhos...
beijo,
r
marcinha,
eu, minha cara, tenho certeza disto!... afinal, estávamos sentados naquele mesmo cume, junto aos nossos brothers, quando vários ventos danados nos convidaram a voar...
beijo!
r
Deveras intrigante...impetuoso como um furacão!!!portanto mais até do que uma ventania ...Ah!!!o que será de um poema se ele não conseguir sobressaltar a alma de quem o lê?...quanto a este intento, decerto tu tiveste êxito.Parabéns pelo poema!!!
di emili,
há ventos demais soprando-me por dentro, desde sempre. eis o impulso que conduziu-me até a ilha da poesia. náufrago convicto, trabalho insurrecto por sair a desvendar o mar imenso que recobre as minhas longitudes: hei de conseguir.
abraço,
r
Olá Renato, não conhecia esse espaço... vim da Silvia Paiva (acho rsrs)
"eu vivo à beira do precipício
e tenho o vício sereno da queda.
a seda que envolve o gume do poema
não teme o corte."
Que lindo isso! me identifiquei muito com essa estrofe.
"(...)eu vivo à custa do que invento
e tenho um vento doido
a soprar-me a cara."
uau! isso é tudo! adorei esse vento doido - é a minha cara rsrs
"Abro a janela e minha mente (in)venta novamente"
Poetabraços
Clauky
clauky,
que bom que a sílvia te trouxe até aqui... entra e fica à vontade, poetamiga... já te conhecia lá do nova literatura, e fico muito feliz de estares apreciando a página branca. vou lá conhecer o teu não lugar tb.
beijo!
r
Caralho, lindo demais...
Beijo meu, feliz por conhecer a tua palavra na tua poesia...
Na tua cara ou onde se inventa ventania,lá sei...
Onde se viva e cria!
Dedé, querida!
eu feliz, ainda que tardiamente, de rever teu comentário... essa palavra imensa, esse fogo, não nos abandone!
beijos,
r
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